O vento começa por volta das dez da manhã. Ao meio-dia, é forte o suficiente para arrancar seu chapéu se você não estiver prestando atenção. Na praia do Preá, uma faixa de areia no estado do Ceará, esse vento é a atração principal. Linhas de kite cortam o céu. Surfistas de bermuda e trapézio arrastam seus equipamentos pelo banco de areia onde um pequeno rio encontra o Atlântico. O cenário parece o fim do mundo, que é mais ou menos como você se sente quando desce pela estrada de terra vindo de Jericoacoara e, de repente, as dunas se abrem para um litoral que, até pouco tempo atrás, pertencia quase inteiramente aos pescadores locais e a alguns viciados em esportes de vento.
Agora, o resto do mundo está chegando. Uma reportagem recente na Folha de S.Paulo observou que o Preá e a vizinha Tatajuba surgiram como destinos globais de kitesurf. O ranking de 2026 da TTW dos 30 melhores pontos de praia nas Américas e no Caribe colocou as praias brasileiras no mapa novamente, e este canto do país é parte da razão disso. Os turistas que vêm para cá não são os mesmos que lotam os cafés nas calçadas de Ipanema. Eles querem vento, não vida noturna. Eles querem um barraco alugado a cem metros da água, não uma torre de vidro com serviço de quarto.
Mas aqui está a parte que você precisa ouvir primeiro. O Preá não é confortável. Não é conveniente. Se você torcer o tornozelo na prancha, o hospital decente mais próximo fica a uma viagem cheia de solavancos. A eletricidade cai. A economia baseada em dinheiro vivo predomina porque as máquinas de cartão falham. A beleza é crua, e a beleza crua vem com farpas.

O boom do Rio e sua reação
Enquanto o Preá atrai um público de nicho, o Rio de Janeiro enfrenta uma enchente. O Washington Post descreveu recentemente como a cidade está tentando se adaptar a um boom turístico sem perder sua identidade. Você pode sentir essa tensão no momento em que sai do aeroporto do Galeão. Os recém-chegados estão em toda parte. Voos de Buenos Aires, Paris, Miami e Lisboa aterrissam lotados. Os meses de verão, de dezembro a março, transformam a Zona Sul em uma correnteza humana.
Eu estava no Rio em fevereiro passado. O metrô para Copacabana funcionou bem, como geralmente acontece, mas os ônibus eram latas de sardinha e as calçadas da praia pareciam um corredor de desfile na hora do rush. Um amigo alugou um apartamento de um quarto a dois quarteirões da praia em Ipanema para o mês. O preço me fez estremecer, e eu já vi muitos aluguéis inflacionados. Os vendedores ambulantes faturam bem, mas os frequentadores habituais reclamam que as suqueiras do bairro, onde costumavam ler o jornal, agora tocam música alta para turistas e cobram o triplo pelo açaí.
A cidade ainda está cambaleando. Alguns dias após chuvas fortes, o trecho próximo a certos canais cheira a esgoto. Batedores de carteira operam nas saídas da praia com a paciência de pescadores. Não digo isso para assustar você. Digo porque o cartão-postal do Cristo Redentor ao pôr do sol não inclui o engarrafamento de duas horas para subir ao Corcovado, ou a taxa de entrada que não para de subir. O Rio entrega. A vista da pedra do Arpoador vale o esforço. O samba em uma roda de samba de verdade, não o tipo de show de palco, ainda faz os pelos do seu braço se arrepiarem. Mas agora você precisa conquistar isso. O boom tornou a cidade mais barulhenta, mais cara e mais vigiada.

Onde os cartões-postais não chegam
Se o Rio é o funil, o restante do Brasil é a boca larga da jarra. A Quartz publicou recentemente uma lista dos destinos mais subestimados do país no momento. O artigo argumentou que a melhor viagem no Brasil é aquela que se afasta dos ícones famosos e vai para cidades que ainda possuem uma feira semanal, um único cinema e uma praça onde homens idosos jogam xadrez ao anoitecer. Separadamente, a Investopedia traçou o perfil de seis joias escondidas para aposentados que buscam um estilo de vida sereno e acessível. Não vou fingir que memorizei cada cidade nessas listas, porque a verdade é que o termo "subestimado" muda rapidamente. O que posso dizer é o padrão.
Esses lugares compartilham algumas características. Eles ficam no interior ou em costas secundárias. Eles ainda não construíram aeroportos internacionais, o que significa que você voa para uma capital e pega um ônibus de cinco horas ou um teco-teco instável. O custo de vida cai pela metade, às vezes dois terços, em comparação com o Rio ou São Paulo. Um casal de aposentados da Europa ou da América do Norte pode alugar uma casa modesta, contratar uma diarista semanal e comer produtos frescos do mercado municipal sem tocar em suas economias, de uma forma que seria impossível em uma grande cidade global.
A estação importa enormemente. De outubro a março, o interior do Nordeste pode parecer um secador de cabelo apontado para o seu rosto. O calor é bíblico. As pequenas cidades ficam silenciosas ao meio-dia. Todos se abrigam até as quatro. Se você vem de um clima ameno, passará esses meses em um estado de suor perpétuo. O lado bom é a estação seca, aproximadamente de abril a setembro, quando os céus se tornam de um azul impossível e as noites esfriam o suficiente para um cobertor.

O calendário sazonal que ninguém imprime
O Brasil não é um paraíso de praia o ano todo da maneira que os folhetos sugerem. É um país de oscilações climáticas violentas. Você precisa combinar seu destino com o mês, ou passará sua viagem encharcado ou queimado de sol além do reconhecimento.
| Destino | Melhores meses | O que esperar | O ponto negativo |
|---|---|---|---|
| Rio de Janeiro | Abril-Junho, Set-Nov | Temperaturas amenas, menos multidões que no verão | Chuva ocasional de primavera; o mar de inverno pode ser agitado |
| Preá / Tatajuba | Junho-Janeiro | Vento constante para kitesurf, ar seco | Meses de pico de vento veem preços de pousadas inflacionados; estradas pioram em chuvas fortes |
| Joias do interior (Nordeste) | Abril-Setembro | Noites mais frescas, menor umidade | Poeira, eventos culturais limitados, poucos falantes de inglês |
| Alta temporada no Rio | Dez-Mar | Energia festiva, dias longos | Preços mais altos, praias lotadas, maior risco de furto |
O vento no Preá de junho a janeiro é uma máquina. Ele sopra de 25 a 35 nós em muitos dias. Os iniciantes fazem aulas na calmaria da manhã, depois os profissionais assumem a partir das duas da tarde. Se você não pratica kite ou windsurf, o apelo do Preá diminui rapidamente. Não há rua de compras. Não há centro histórico para passear. A praia é a atividade. Tatajuba, alguns quilômetros a oeste, é ainda mais pacata. Uma lagoa se forma atrás das dunas e as escolas de kite montam plataformas rústicas de madeira. Você vai lá para fazer uma única coisa, e se o vento parar, você lê um livro e espera.

O que decepciona
O Brasil é generoso com sua beleza, mas mesquinho com sua infraestrutura, e essa lacuna é onde os viajantes se machucam. No Rio, você ficará na fila em atrações superfaturadas enquanto os aplicativos de táxi sobem os preços em 3x. Nas costas remotas, você descobrirá que "pousada de frente para o mar" significa uma caixa de concreto com um ventilador que faz barulho e um chuveiro que goteja. Os parques nacionais que entram nas listas de subestimados muitas vezes carecem de sinalização, trilhas decentes ou horários de funcionamento confiáveis. Já dirigi quatro horas até uma cachoeira listada em um guia apenas para encontrar o portão trancado sem explicação. Os padrões de higiene variam. Um deslumbrante peixe frito à beira-mar pode ser servido em uma mesa que não vê água sanitária há uma semana. Golpes são raros no interior, mas comuns nas rodoviárias do Rio, onde carregadores falsos pegam sua mala e exigem uma taxa. Nada disso é motivo para ficar em casa. É um motivo para ajustar suas expectativas antes que o avião pouse.

A conta honesta
Desconfio de citar preços exatos porque eles apodrecem mais rápido que frutas nos trópicos. O que posso oferecer é a proporção. Um mês em um apartamento confortável em uma pequena cidade do interior custa atualmente o que uma semana em um hotel de frente para a praia no Rio custa durante o Carnaval. Um almoço diário com frutos do mar no Preá custa menos do que um único coquetel em um bar na cobertura no Leblon. O ranking da TTW e a reportagem da Folha sobre o Preá e Tatajuba sinalizam que essas proporções estão sob pressão. À medida que a atenção global chega, os preços sobem. Os aposentados no artigo da Investopedia estão comprando ou alugando agora porque veem que a janela está se fechando.
O transporte é o custo oculto. O Brasil é enorme. Um voo do Rio para Fortaleza, a cidade grande mais próxima do Preá, leva três horas. Depois, você enfrenta um traslado terrestre de cinco horas. As tarifas aéreas domésticas oscilam drasticamente. Se você não reservar com um mês de antecedência, pode pagar tanto por uma passagem Rio-Fortaleza quanto pelo trecho internacional. Os ônibus são mais baratos e surpreendentemente confortáveis, mas eles consomem dias. Leve isso em consideração. Uma viagem de duas semanas que tenta combinar o Rio, as montanhas do sul e uma praia no Nordeste é uma maratona logística, não umas férias.

Como escolher
Para energia, densidade urbana e os ícones clássicos, vá ao Rio. Vá em abril ou novembro. Hospede-se em Santa Teresa ou Lapa se quiser música, ou em Copacabana se quiser acordar e caminhar direto para a areia. Mantenha seu celular no bolso da frente. Pegue o metrô. Aceite que você é um entre milhões.
Para vento, areia e um cronograma ditado pelas marés, vá ao Preá ou a Tatajuba. Vá em agosto ou setembro, quando o vento é constante, mas as hordas de férias ainda não chegaram. Fique pelo menos dez dias. Qualquer coisa a menos não vale a viagem.
Para o Brasil que ainda parece um segredo, escolha uma das cidades menores que os recentes relatórios de aposentados e destinos subestimados começaram a expor. Vá por um mês, não um fim de semana. Aprenda algumas frases em português. Faça compras no mercado. Espere pelo tédio. O tédio é o objetivo.
O Brasil não é um país que você conquista em uma única viagem. É grande demais, contraditório demais, bonito demais em um lugar e frustrante demais no outro. O boom turístico no Rio é real. A multidão global do kite no Ceará é real. As cidades tranquilas que atraem estrangeiros para estadias longas são reais. Você só precisa decidir qual Brasil você pode pagar, em dinheiro e em paciência, e combinar sua estação com o litoral.

